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Mindfulness e MBSR: princípios, resultados e pertinência

Série Pensamentos — citação de Jon Kabat-Zinn: «Você não pode parar as ondas, mas pode aprender a surfar.»

A palavra mindfulness tornou-se familiar: aparece em revistas, em programas de formação e em aplicações para o telemóvel. A facilidade com que se diz corre, porém, o risco de esconder aquilo que a distingue. O mindfulness não é uma moda passageira, nem uma técnica de relaxamento, nem um programa de motivação — é uma prática com mais de quatro décadas de investigação, com princípios definidos e resultados documentados.

Neste texto, proponho uma passagem por três momentos: os princípios que orientam a prática, os principais resultados que a investigação sobre o mindfulness e o MBSR documenta e a pertinência que esta prática tem na atualidade — para a saúde e o bem-estar das pessoas e para a vida das organizações.

O que é o mindfulness

Mindfulness é, no fundo, aquilo que fazemos quando prestamos atenção de propósito, ao momento presente, sem julgar. É a tradução de uma palavra antiga que designa precisamente isso: uma atenção deliberada ao que está a acontecer agora — dentro de nós e à nossa volta.

Não é esvaziar a mente nem desligar dos problemas. A mente vai, naturalmente, para o passado e para o futuro; a prática consiste em notar esse movimento e regressar, sem autocrítica, ao que se está a passar: a respiração, as sensações do corpo, os sons, aquilo que se está a fazer.

Essa capacidade — reparar que a atenção se foi e trazê-la de volta — treina-se. Como um músculo, fortalece com a repetição; e os seus efeitos não ficam na sessão: acompanham-nos para a tomada de decisão, para a escuta e para a forma como lidamos com o stress e com os outros.

Os princípios que orientam a prática

A atenção intencional está no centro. A prática não é passiva: é um exercício deliberado de colocar a atenção num objeto — a respiração, o corpo, os sons — e de a devolver, tantas vezes quantas as necessárias, sempre que ela se dispersa. Cada regresso é uma repetição que treina o foco.

Com a atenção vem uma atitude de não julgamento: observar o que se passa — pensamentos, emoções, sensações — sem o classificar de bom ou de mau. Dessa observação nasce a aceitação: ver as coisas como estão, e não como gostaríamos que estivessem. Não é resignação; é o ponto de partida honesto para qualquer mudança.

A mente de principiante convida a olhar para o familiar como se fosse a primeira vez, libertando-nos das respostas automáticas. O não-esforço recorda que nem tudo se conquista pela força: na prática, cultivamos as condições e deixamos que o processo aconteça. E aprender a deixar ir — ideias, expectativas, histórias que contamos sobre nós próprios — alivia o peso com que tantas vezes atravessamos o dia.

O corpo é a âncora de tudo isto. A respiração está sempre no momento presente e as sensações físicas são o primeiro sinal do que se passa em nós — incluindo o stress. Aprender a ler esses sinais cedo é aprender a responder em vez de reagir.

O programa MBSR

O MBSR (Mindfulness Based Stress Reduction) é um programa de 8 semanas criado por Jon Kabat-Zinn, em 1979, na Universidade de Massachusetts, para dar estrutura e método ao mindfulness. É hoje um dos programas mais estudados no mundo, aplicado em hospitais, escolas e empresas.

Ao longo de 8 encontros de cerca de 50 minutos — individuais ou em grupo, com a duração a poder variar consoante o nível de experiência do praticante — combinam-se a meditação sentada, o body scan, o movimento consciente e a atenção aplicada à vida diária. Um dia intensivo de prática em silêncio consolida o percurso.

O que distingue o MBSR não é a originalidade dos exercícios, mas o seu enquadramento: um currículo progressivo, com prática regular entre sessões, orientado por quem tem formação específica para acompanhar o processo. É essa estrutura que transforma uma experiência pontual num hábito com efeitos duradouros.

Principais resultados

A investigação sobre o mindfulness é hoje extensa e inclui centenas de ensaios clínicos. Uma revisão de 47 estudos, publicada na JAMA Internal Medicine, encontrou melhorias moderadas na ansiedade, na depressão e na dor — magnitudes comparáveis às de outros tratamentos de referência, com a vantagem de uma prática que cada pessoa pode continuar a desenvolver ao longo da vida.

Na prevenção da recaída depressiva, a terapia cognitiva baseada em mindfulness reduziu em cerca de 31% o risco de recaída, em análise conjunta de ensaios publicada na JAMA Psychiatry — um resultado que consolidou o lugar do mindfulness na saúde mental.

No trabalho, os resultados também se medem. Programas em contexto empresarial documentados no Journal of Occupational Health Psychology mostraram reduções do stress percebido; no caso estudado pela seguradora Aetna, a prática esteve associada a menos 28% de stress, a cerca de 20% mais qualidade de sono e a 62 minutos de produtividade recuperada por trabalhador, por semana.

Convém, porém, a honestidade que a própria investigação recomenda: os efeitos dependem da prática regular e do acompanhamento adequado, e o mindfulness não substitui a avaliação e a intervenção sobre as condições de trabalho. É um instrumento de desenvolvimento da pessoa — não uma desculpa para não mudar aquilo que deve mudar na organização.

Pertinência na atualidade

A Organização Mundial da Saúde estima que se percam, todos os anos, cerca de 12 mil milhões de dias de trabalho por causa da depressão e da ansiedade, com um custo próximo de 1 bilião de dólares. Nunca a atenção foi tão solicitada — por ecrãs, notificações e prazos — e nunca foi tão escassa.

O trabalho híbrido, o ritmo acelerado da mudança e a hiperligação permanente aumentaram a carga sobre a capacidade de atenção e de regulação emocional das pessoas. Neste cenário, o mindfulness responde a uma necessidade concreta: devolver às pessoas a capacidade de estar presentes, de pausar e de escolher a resposta em vez de reagir ao impulso.

Para as organizações, a pertinência é igualmente prática. Integrar o mindfulness no plano de desenvolvimento e saúde dos trabalhadores é prevenção: apoia a redução do stress e do absentismo, melhora o foco e a qualidade das decisões e alimenta climas de segurança psicológica — em coerência com referenciais como a NP 4552, sobre a saúde mental no trabalho, e a NP 4590, sobre o risco psicosocial.

Um caminho ao alcance de todos

O mindfulness não exige condições especiais: exige decisão e constância. Um corpo que respira, alguns minutos por dia e a vontade de começar, outra vez, sempre que a atenção se perde — porque voltar a começar faz parte da prática.

As sessões de mindfulness e de MBSR que acompanho realizam-se nas minhas instalações ou na sua empresa, em formato individual ou em grupo, em sessões de cerca de 50 minutos, com a duração a poder variar consoante o nível de experiência do praticante.

Se sente que vale a pena dar este passo — para si, para a sua equipa ou para a sua organização —, estou à disposição para conversar.

Goyal M. et al. (2014). Meditation programs for psychological stress and well-being. JAMA Internal Medicine.

Kuyken W. et al. (2016). Efficacy of mindfulness-based cognitive therapy in prevention of depressive relapse. JAMA Psychiatry.

Wolever R. et al. (2012). Effective and viable mind-body stress reduction in the workplace. Journal of Occupational Health Psychology.

Organização Mundial da Saúde (2022). Saúde mental no trabalho.

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