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O vazio existencial: procurar sentido na vida e no trabalho

Série Pensamentos — citação de Viktor Frankl: «A vida tem um significado que o homem tem que descobrir; não encontrar o significado para sua vida lhe provocaria um vazio existencial.»

Há frases que nos acompanham durante anos. Esta, de Viktor Frankl, é uma delas. Recorda-nos que o sentido da vida não é algo que nos é entregue pronto, mas algo que cada pessoa tem de descobrir — e que, quando essa descoberta não acontece, instala-se aquilo a que Frankl chamou «vazio existencial».

Neste texto proponho uma reflexão em dois momentos: primeiro, sobre o que é esse vazio e porque importa enfrentá-lo na vida de cada um; depois, sobre a forma como ele se manifesta no trabalho e o impacto que tem nas pessoas.

O que é o vazio de sentido

Frankl, psiquiatra e sobrevivente dos campos de concentração, observou que muitas pessoas não sofriam por falta de meios, mas por falta de razões. Tinham com que viver, mas não sabiam para que viver. O vazio existencial é precisamente isso: uma sensação persistente de que os dias se sucedem sem direção, de que aquilo que fazemos não nos diz respeito, de que nada verdadeiramente nos chama.

Raramente surge de forma dramática. É mais frequente manifestar-se como tédio, apatia, cansaço sem causa aparente, uma agitação constante que procura preencher o tempo ou, pelo contrário, uma desistência silenciosa. Muitas vezes tentamos tapá-lo com ruído: mais consumo, mais ecrãs, mais ocupação, mais desempenho. Mas o vazio não se resolve enchendo a agenda — resolve-se encontrando significado.

Importa sublinhar que sentir este vazio não é sinal de fraqueza nem de falha pessoal. É uma experiência profundamente humana, sobretudo em momentos de transição, perda ou mudança. O problema não está em senti-lo; está em ignorá-lo durante demasiado tempo.

Porque é importante fazer-lhe face

Para Frankl, a procura de sentido é a motivação mais profunda do ser humano. Quando essa procura é frustrada, a pessoa fica mais vulnerável: ao desânimo, à ansiedade, ao isolamento, a comportamentos de fuga e, em alguns casos, ao sofrimento psicológico mais sério. Pelo contrário, quem encontra razões para viver tende a lidar melhor com a adversidade, porque o sofrimento ganha um enquadramento e o esforço ganha uma direção.

Fazer face ao vazio não significa encontrar uma grande resposta definitiva. O sentido descobre-se, sobretudo, no concreto. Frankl apontava três caminhos: aquilo que criamos e damos ao mundo; aquilo que recebemos e vivemos — o amor, a beleza, a relação com os outros; e a atitude que escolhemos perante aquilo que não podemos mudar.

A plenitude da existência não é a ausência de dificuldades. É a experiência de estar inteiro naquilo que se vive: reconhecer o que valorizamos, alinhar as escolhas com esses valores e sentir que a nossa presença faz diferença para alguém. É uma construção diária, feita de pequenas decisões, relações cuidadas e momentos de pausa para perguntar: «Para quê? Para quem?»

Pistas para reencontrar sentido

Parar e escutar: dar espaço ao desconforto em vez de o abafar com ocupação permanente.

Clarificar valores: identificar o que é, de facto, importante — e não apenas urgente.

Investir nas relações: o sentido raramente se encontra sozinho; constrói-se com e para os outros.

Contribuir: fazer algo, por pequeno que seja, que ultrapasse o próprio interesse.

Pedir ajuda: quando o vazio se prolonga e pesa, falar com um profissional de saúde é um gesto de cuidado, não de fragilidade.

O vazio de sentido no trabalho

Passamos uma parte enorme da vida a trabalhar. Por isso, o trabalho é um dos lugares onde o sentido mais se joga — e onde o vazio mais se faz sentir. Quando a pessoa não compreende para que serve o que faz, não vê o resultado do seu esforço, não se reconhece nos valores da organização ou sente que é apenas uma peça substituível, o trabalho deixa de ser fonte de realização e passa a ser apenas obrigação.

Este vazio tem muitas faces. Pode ser o boreout de quem tem tarefas sem desafio nem utilidade percebida; o rustout de quem foi ficando, ao longo dos anos, sem estímulo e sem perspetiva; ou o desgaste de quem trabalha intensamente sem perceber porquê. Pode também nascer de incoerências: discursos sobre pessoas e valores que não se refletem nas práticas do dia a dia.

O impacto na pessoa

O vazio de sentido no trabalho não fica à porta da empresa. Acompanha a pessoa para casa e afeta a sua saúde, as suas relações e a forma como se vê. Manifesta-se em desmotivação, cinismo, irritabilidade, fadiga persistente, perturbações do sono, perda de confiança e, muitas vezes, num afastamento progressivo — primeiro emocional, depois físico.

Para as organizações, as consequências são igualmente visíveis: mais absentismo e presentismo, maior rotatividade, menor envolvimento, menos criatividade e equipas mais frágeis. Mas o custo mais profundo é humano: pessoas capazes que deixam de acreditar no valor daquilo que fazem.

O que as organizações e as lideranças podem fazer

O sentido não se impõe por decreto, mas pode ser favorecido. As organizações têm aqui uma responsabilidade clara: criar condições para que cada pessoa compreenda o propósito do seu trabalho e o impacto que tem nos outros.

Isso passa por lideranças próximas, que explicam o porquê das decisões e reconhecem o contributo de cada um; por funções desenhadas com autonomia, desafio e possibilidade de crescimento; por coerência entre valores declarados e práticas reais; por relações de confiança e segurança psicológica; e por uma gestão ativa dos riscos psicossociais, que olhe para a organização do trabalho e não apenas para o indivíduo.

Referenciais como a NP 4590, a NP 4552 e a ISO 9001 ajudam a dar estrutura a este caminho, ao colocarem as pessoas, a conciliação e a melhoria contínua no centro da gestão. Mas nenhum sistema substitui o essencial: a forma como, todos os dias, cada pessoa é tratada, ouvida e valorizada.

Uma descoberta partilhada

Frankl lembra-nos que o sentido tem de ser descoberto. Essa descoberta é pessoal, mas não é solitária. Cada um de nós pode perguntar-se o que dá sentido à sua vida e ao seu trabalho; e cada organização pode perguntar-se se está a facilitar ou a dificultar essa descoberta.

Fazer face ao vazio existencial é, no fundo, escolher viver — e trabalhar — com mais consciência, mais coerência e mais humanidade. É aí que começa uma existência mais plena e organizações verdadeiramente saudáveis.

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