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Viktor Frankl: a liberdade de escolher e o sentido no trabalho

Série Pensamentos — citação de Viktor Frankl sobre a liberdade de escolher a atitude pessoal perante as circunstâncias.

A célebre máxima de Viktor Frankl — “Tudo pode ser tirado de um homem, menos uma coisa: a última das liberdades humanas escolher a atitude pessoal diante de um conjunto de circunstâncias para decidir seu próprio caminho” — sintetiza o pilar fundamental da logoterapia: a responsabilidade individual sobre o próprio destino.

Para Frankl, a criação do sentido de vida não é um privilégio reservado a momentos de prosperidade, nem algo que nos é concedido pelo meio externo, mas sim um ato consciente de escolha. Mesmo quando o indivíduo é desprovido de bens, direitos ou conforto, permanece intacta a sua soberania interna de decidir como responder à adversidade. É precisamente nesse espaço entre o estímulo e a resposta que reside a dignidade humana, transformando a dor ou a limitação num testemunho de maturidade espiritual e propósito.

O sentido no trabalho

Extrapolando esta premissa para a esfera profissional, o sentido do trabalho revela-se não como uma propriedade inerente a uma determinada profissão, mas como um reflexo da atitude com que o trabalho é desempenhado. Frequentemente, o ambiente corporativo e laboral é marcado por condicionantes que ultrapassam o controlo do indivíduo: reestruturações, pressões por metas, dinâmicas de poder ou tarefas rotineiras. Contudo, adotar a perspetiva frankliana implica reconhecer que, embora não se possa controlar todas as variáveis do ambiente profissional, mantém-se intacta a liberdade de escolher o propósito atribuído às tarefas diárias.

Assim, o sentido no trabalho nasce da transição de uma postura passiva — onde o profissional se perceciona como mera vítima das circunstâncias — para uma postura ativa e interventiva. O trabalho deixa de ser uma obrigação mecânica para se tornar um veículo de realização pessoal, serviço ao próximo e coerência ética. Ao assumir a responsabilidade pela sua atitude, o trabalhador ressignifica os desafios normais da carreira, encarando-os como oportunidades de aprendizagem e superação, convertendo o quotidiano laboral num percurso autêntico de maturidade e desenvolvimento.

Liberdade interior não significa responsabilidade pelo sofrimento

Esta leitura exige, contudo, uma distinção essencial: reconhecer a capacidade de escolher uma resposta não significa afirmar que tudo depende da vontade, nem que quem sofre não soube encontrar a atitude certa. A liberdade interior é exercida dentro de limites reais — físicos, psicológicos, sociais e materiais. A doença, a exaustão e a precariedade podem reduzir a margem de ação e tornar necessário o apoio de outras pessoas e de profissionais de saúde.

Encontrar sentido também não implica aceitar o inaceitável. Perante o assédio, a discriminação ou a sobrecarga persistente, uma resposta responsável pode consistir em estabelecer limites, denunciar uma situação, procurar proteção ou mudar de contexto. O pensamento de Frankl não deve servir para romantizar o sofrimento evitável, nem para transferir para o trabalhador a obrigação de suportar uma organização que o adoece.

Sentido e promoção da saúde mental

Promover a saúde mental é mais do que prevenir a doença: é criar condições para viver, relacionar-se e participar com dignidade. Sentir que o nosso contributo tem valor, que pertencemos a uma comunidade e que existe coerência entre os nossos valores e as nossas ações pode apoiar o bem-estar. A Organização Mundial da Saúde identifica o propósito, as relações positivas e a inclusão entre os benefícios que um trabalho digno pode proporcionar.

O sentido funciona aqui como uma orientação, não como uma garantia de imunidade. Ter um propósito não impede, por si só, a ansiedade, a depressão ou outras dificuldades de saúde mental. Mas pode ajudar a reconhecer prioridades, procurar apoio e decidir onde investir energia. A pergunta deixa de ser apenas «Como posso aguentar mais?» e passa a incluir «O que preciso de proteger para continuar a viver e a trabalhar de forma saudável?».

Esta mudança permite distinguir compromisso de disponibilidade ilimitada. Uma pessoa pode valorizar profundamente o seu trabalho e, ao mesmo tempo, precisar de descanso, acompanhamento psicológico ou de uma reorganização das suas responsabilidades. Pedir ajuda não contradiz a autonomia: é uma das formas de a exercer.

Qualidade de vida: a pessoa para além da função

A qualidade de vida não se esgota no rendimento, no cargo ou na produtividade. Inclui a forma como cada pessoa vive a sua saúde, as suas relações, a segurança material, o tempo disponível e a possibilidade de concretizar aquilo que considera importante. Uma carreira com reconhecimento externo pode coexistir com uma vida empobrecida pelo cansaço, pela ausência de tempo ou pelo afastamento das relações significativas.

Ligar sentido e qualidade de vida implica, por isso, reconhecer que a identidade é maior do que a função profissional. A família, a amizade, a participação na comunidade, o lazer e o descanso também são lugares de realização. O trabalho pode enriquecer a vida, mas não deve ocupar todo o espaço de onde essa vida retira significado.

Sono suficiente, atividade física ajustada à condição de cada pessoa, alimentação equilibrada e relações de apoio integram o cuidado com a saúde. Não devem, porém, ser apresentados como soluções individuais para problemas estruturais. Se os horários impedem o descanso ou a carga de trabalho torna a recuperação inviável, é também necessário alterar as condições em que o trabalho acontece.

Qualidade de vida no trabalho: transformar as condições

A qualidade de vida no trabalho traduz-se na experiência diária de quem trabalha: a carga de tarefas, a autonomia, a clareza das responsabilidades, a justiça nas decisões, a segurança e a qualidade das relações. Não se resume a benefícios pontuais ou a iniciativas de bem-estar desligadas da organização do trabalho. Um espaço agradável não compensa, por si só, uma liderança humilhante ou objetivos sistematicamente inexequíveis.

As orientações da OMS sobre saúde mental no trabalho colocam as intervenções organizacionais entre as respostas necessárias. Na prática, isso significa avaliar riscos psicossociais com a participação dos trabalhadores, adequar exigências aos recursos disponíveis, clarificar prioridades, prevenir o assédio e criar canais seguros de escuta. Significa também preparar as lideranças para responder com respeito, sem lhes atribuir a função de diagnosticar ou tratar.

O sentido ganha consistência quando existe coerência entre o discurso e a prática. Dizer que «as pessoas estão primeiro» exige decisões que protejam pausas, respeitem limites e permitam conciliar a vida pessoal e profissional. A confiança nasce quando é possível comunicar dificuldades sem receio de humilhação ou penalização.

Prevenção da doença: agir antes, reconhecer cedo, apoiar depois

A prevenção exige atuar em diferentes momentos. Antes de surgirem problemas, importa reduzir a exposição a fatores de risco: sobrecarga continuada, violência, insegurança, isolamento ou falta de controlo sobre o trabalho. Não basta ensinar a gerir o stresse se as suas causas permanecem intocáveis. A prevenção começa também no desenho das tarefas, dos horários e dos relacionamentos.

Quando aparecem dificuldades, reconhecer cedo alterações persistentes no sono, irritabilidade, cansaço intenso, isolamento ou problemas de concentração pode favorecer a procura de apoio. Estes sinais não constituem, por si só, um diagnóstico e podem ter diferentes causas. Se persistirem, se agravarem ou interferirem com a vida diária, justificam uma avaliação por um profissional de saúde. A informação e o combate ao estigma devem facilitar esse acesso, não transformar colegas ou chefias em avaliadores clínicos.

Quando existe doença, o cuidado inclui tratamento adequado, confidencialidade e condições de trabalho ajustadas às necessidades da pessoa. Um regresso ao trabalho acompanhado, com adaptações quando necessárias, pode apoiar a recuperação e a participação. A reflexão sobre o sentido pode integrar esse percurso, mas nunca substituir cuidados clínicos nem apresentar-se como cura.

Saúde física e saúde mental devem ser consideradas em conjunto, sem reduzir toda a doença ao stresse ou à atitude pessoal. A prevenção inclui o acompanhamento de saúde recomendado para cada pessoa e a proteção contra os riscos profissionais relevantes. Nenhuma destas medidas garante a ausência de doença; o objetivo é reduzir riscos, favorecer o cuidado atempado e evitar agravamentos preveníveis.

Uma responsabilidade partilhada

A contribuição de Frankl torna-se particularmente fecunda quando a responsabilidade individual encontra a responsabilidade coletiva. À pessoa cabe, dentro das suas possibilidades, reconhecer necessidades, procurar apoio e fazer escolhas coerentes com os seus valores. À organização cabe criar condições dignas, prevenir riscos e assegurar que o cuidado não depende apenas da capacidade de resistência de cada trabalhador.

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas «Que atitude escolho perante estas circunstâncias?», mas também «Que circunstâncias estamos a criar para que as pessoas possam viver e trabalhar melhor?». É neste encontro entre sentido, cuidado e condições concretas que a qualidade de vida deixa de ser uma intenção e passa a orientar a prevenção da doença e a promoção da saúde mental.

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